Antes ele do que eu!

curisosos
Eu escrevi este texto em minha Oficina de humor. Está disponível no site: www. cronicascariocas.com/oficina_marciopaschoal_ooo5.html

Antes ele do que eu

Quando estou em um engarrafamento causado por qualquer acidente, fico observando a necessidade que todos têm de dar uma espiada. O pessoal da pista contrária diminui a marcha somente pelo mórbido prazer de ver a desgraça que aconteceu. O que leva as pessoas a isso?

Será que existe prazer vendo alguém se dando mal? Ficam essas pessoas aliviadas por não estarem no carro acidentado? Será que se imagina que há algum conhecido? Em qualquer das hipóteses há uma atitude meio doentia nesse tipo de curiosidade.

Nas bancas de jornal sempre há um grupo vendo fotos de pessoas decapitadas, reportagens falando de morte, assaltos, chacinas, brigas, acidentes, etc. O que atrai tanto nas desgraças alheias?

Quando alguém discute ou briga em público é bem verdade que dá uma vontade danada de ficar olhando. O estranho é que o mesmo não acontece quando vemos um reencontro, uma reconciliação. Será que sentimos um certo desconforto com os abraços e manifestações de alegria. Por que será que desviamos o olhar? Inveja? Pode ser…

Imagino alguém lendo esta crônica agora e dizendo, irritado: “não, claro que não! Não tenho porque ter inveja, só respeito a privacidade”. Será mesmo? E na briga, no acidente, por que ninguém respeita essa privacidade? Quem tem que olhar é quem precisa e vai fazer alguma coisa, o grupo de socorristas, a polícia, a família, algum médico passando pelo local, mas a grande maioria olha mesmo por olhar, como formigas atraídas ao açúcar. Não raras vezes para somente dizer que viu um acidente e que o cara estava todo quebrado e que com ele isso não acontece porque toma as precauções etc etc. São os profetas do apocalipse urbano, os que acompanham os noticiários, sorrindo vitoriosos e dizendo que já sabiam que isso ia acontecer. Há ainda os que dizem que não freqüentam aquele lugar por isso mesmo, muita gente morre lá. Todos se sentem aliviados pelas decisões de toda uma vida. Saem daquele lugar satisfeitos, estranhamente melhores.

A lado monótono da vida até que vale a pena, independentemente do tamanho da alma. Os problemas não têm tanta importância, nem os amores perdidos, a falta de grana, a saudade da juventude, tudo certo porque eu não estava no bairro naquela hora da chacina, porque eu não saio mais à noite na Lapa, só ando de moto com capacete, não deixo de fazer exames médicos todo ano, reduzi o álcool, agora só ando em boas companhias, porque a bala perdida não me pegou, não acredito nos políticos e parei com o cigarro…Acho que me dei bem. Por enquanto…

Diga suas palavras